100 — 200 d.C.

A Coleção de Instrumentos Cirúrgicos do Império Romano

Dois mil anos antes do bisturi moderno.

Ferro · Bronze · Séculos I — III d.C. · Dr. Alexandre Amato

Imagine um cirurgião, por volta do ano 150 d.C., preparando-se para operar. Ele ferve seus instrumentos em água antes de usá-los. Lava a ferida do paciente com vinagre. Administra extrato de ópio e de Hyoscyamus niger — a planta que hoje conhecemos como fonte da escopolamina — para sedar quem está sobre sua mesa. Sabe que artérias e veias carregam sangue, embora ainda não entenda exatamente como ele circula.

Nada disso será formalmente “redescoberto” pela medicina ocidental até o século XIX. William Harvey só descreverá a circulação sanguínea em 1628. Joseph Lister só proporá o ácido carbólico como antisséptico em 1865 — e, curiosamente, o vinagre dos romanos era um antisséptico mais eficaz.

Este acervo particular reúne instrumentos cirúrgicos originais do Império Romano, em sua maioria confeccionados em ferro, alguns em bronze, datados entre 100 e 200 d.C. São peças que atravessaram dois milênios para chegar até aqui — e que carregam, em seu metal, a memória de uma medicina muito mais sofisticada do que costumamos imaginar.

Vitrine I da coleção: dissectors, ruginas, probes e cautérios cirúrgicos romanos em ferro e bronze, séculos I–III d.C.
Vitrine · Placa I Dissectors, ruginas, probes e cautérios.
I

Nascidos nos campos de batalha

O grande salto do conhecimento cirúrgico romano não veio de academias nem de templos. Veio da guerra.

Sob o comando de Gaius Marius (157–86 a.C.), o exército romano tornou-se a força militar mais treinada e disciplinada do mundo antigo. Mas com exércitos grandes vieram baixas grandes — e a necessidade urgente de salvar soldados feridos em campanhas distantes produziu uma geração de cirurgiões pragmáticos, inventivos e extraordinariamente hábeis. Cada fratura exposta, cada flecha alojada, cada ferimento de espada era um laboratório forçado a funcionar em meio ao caos.

Foi nesse cenário que floresceu, entre os séculos I e III d.C., um período notável de pesquisa e prática médica. Leonidas, Heliodoros e Antyllos escreveram sobre experimentos neurocirúrgicos cujos registros foram posteriormente compilados por Oribasios em suas Coleções Médicas, e depois por Aítios e Paulos. Justapostas aos trabalhos de Galeno — que dissecava bovinos para entender as complicações das penetrações da dura-máter — essas obras desenharam um mapa surpreendentemente detalhado da anatomia e da técnica operatória.

Heliodoros e Galeno descreveram o manejo de fraturas cranianas — o rogme e o katagma — e a trepanação em fraturas com depressão, o empiesma. Heliodoros tratava os vivos. Galeno, os animais que lhe ensinavam sobre os vivos. Juntos, fundaram uma tradição.

Em cena · Reconstituição

A sala de operação, circa 150 d.C.

Do segundo episódio de Rome (HBO). Uma reconstituição cinematográfica excepcional que escancara o completo desconhecimento de anestesia, assepsia e antissepsia — e ainda assim, o gesto cirúrgico romano é inconfundível.

Estamos todos no mesmo ofício.
Separados apenas pelo tempo.

Vitrine II da coleção: ganchos, curetas, agulhas de sutura e fresa de trepanação romanos, séculos I–III d.C.
Vitrine · Placa II Ganchos, curetas, agulhas de sutura e a fresa de trepanação.
II

O que você está vendo

Os instrumentos desta vitrine guardam uma semelhança perturbadora com o instrumental cirúrgico que usamos hoje. Observe com atenção.

  1. 01

    Dissectors retos

    Praticamente idênticos aos usados em neurocirurgia moderna.

  2. 02

    Ruginas

    Destinadas à dissecção do periósteo, inserções musculares, ou como escalpelo.

  3. 03

    Agulhas de passagem de fio

    Para suturas — o gesto mais antigo e mais constante da cirurgia.

  4. 04

    Cabo tipo Gigli

    Um cabo que já funcionava como o que hoje chamamos de serra de Gigli.

  5. 05

    Fresa de drill

    Para trepanação — o ato milenar de perfurar o crânio para aliviar pressão intracraniana.

  6. 06

    Ganchos, probes, curetas, cautérios

    Cada um com propósito específico, refinado pelo uso repetido ao longo de gerações.

Muitos desses instrumentos, se esterilizados e colocados em uma bandeja ao lado dos meus, seriam reconhecidos por qualquer cirurgião contemporâneo.

Mudaram o aço, a ergonomia, a precisão da manufatura. Mas a ideia — o formato que resolve o problema anatômico — permaneceu.

III

Por que uma coleção?

Há algo de humilde em manusear instrumentos que salvaram (e, inevitavelmente, também perderam) vidas há dois mil anos. Eles nos lembram que a medicina não é uma invenção moderna que caiu pronta do céu. É uma herança — transmitida de mão em mão, de mestre a aprendiz, de civilização a civilização, atravessando colapsos de impérios e séculos de silêncio.

Cada peça desta vitrine pertenceu a um cirurgião que, como nós, enfrentou a incerteza da sala de operação. Que fervia seus instrumentos sem saber exatamente por quê, mas sabendo que funcionava. Que escrevia suas observações em pergaminho para que os que viessem depois aprendessem mais rápido do que ele aprendeu.

Capa do livro Uma Breve História da Cirurgia, do Prof. Dr. Alexandre Amato

Do mesmo autor

Uma Breve História da Cirurgia

Dos bisturis de pedra aos robôs cirúrgicos — cinco mil anos do ofício que aprendeu a abrir o corpo humano e devolvê-lo inteiro.

  • 10capítulos
  • 86páginas
  • 5.000+anos de história
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